Quando o dinheiro aparece para os de cima e some para os de baixo.

O Brasil tem uma habilidade impressionante: ser rígido com quem precisa e generoso com quem já tem muito.

Toda vez que surge a discussão sobre ampliar um benefício social, garantir um auxílio gás ou reforçar a renda de quem vive com meio salário mínimo, o discurso é o mesmo:

“Não tem orçamento.”

“É preciso responsabilidade fiscal.”

“O país não aguenta mais gastos.”

Mas essa preocupação simplesmente desaparece quando o assunto é privilégio dentro do próprio Estado.

O teto que só vale no papel

A Constituição criou um teto salarial no serviço público. Na teoria, ninguém poderia ultrapassar esse limite. Na prática, ele virou peça decorativa.

Auxílios, gratificações, indenizações e vantagens acumuladas — os famosos penduricalhos — fazem com que salários ultrapassem com folga o valor que deveria ser o máximo. Tudo “dentro da lei”, muitas vezes. Mas completamente fora da realidade de um país onde milhões lutam para pagar gás, comida e aluguel.

A pergunta é inevitável:

se há tanta criatividade para aumentar ganhos no topo, por que ela desaparece quando o objetivo é garantir dignidade na base?

Emendas parlamentares: o orçamento como moeda de troca

Como se não bastassem os supersalários, o orçamento público ainda precisa bancar um modelo de emendas parlamentares que se transformou em ferramenta de barganha política.

São bilhões de reais por ano distribuídos por interesse político, não necessariamente por prioridade social. Parte disso até vira obra e serviço, sim. Mas outra parte se perde em:

projetos de pouca relevância

obras inacabadas

suspeitas de superfaturamento

uso eleitoral do dinheiro público

O escândalo do chamado “orçamento secreto” mostrou o tamanho do problema: dinheiro público circulando sem transparência adequada sobre quem pediu e por quê.

Enquanto isso, falta recurso para políticas estruturantes, porque uma fatia enorme do orçamento já sai carimbada por acordos políticos.

A incoerência que revolta

O que incomoda o cidadão não é só o valor gasto. É a diferença de tratamento.

Para manter privilégios:

👉 sempre existe uma brecha

👉 sempre há articulação

👉 sempre aparece dinheiro

Para ajudar quem mais precisa:

👉 é caro demais

👉 vai quebrar o país

👉 não é prioridade

No fim das contas, a mensagem que passa é cruel e clara:

o problema nunca é gastar — é gastar com o pobre.

A conta da injustiça

Esse modelo corrói a confiança na política e reforça a sensação de que o sistema foi moldado para proteger quem já está dentro dele. O cidadão comum paga imposto, enfrenta fila em hospital, escola precária, transporte ruim — e ainda ouve que é preciso “apertar o cinto”.

Mas o cinto, curiosamente, só aperta do lado de fora de Brasília.

Num país desigual como o Brasil, discutir responsabilidade fiscal é necessário. Mas ela precisa começar pelos privilégios, não pelos pratos vazios.

Enquanto isso não mudar, a revolta popular não é exagero.

É consequência.

Diário do Maciço de Baturité.

Marcos Dantas 

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